TODO O POÇO TEM O SEU LODO E O SEU LÓTUS TAMBÉM

Na vida, há momentos que gostaríamos de poder evitar, pois parecem não ter fim.

Momentos dolorosos, travessias necessárias, que trazem até nós, o confronto da polaridade. De repente, precisamos escolher entre aquilo que nos aperta e já não nos deixa respirar, e a inevitabilidade do desconhecido, que nos obriga a seguir outros caminhos, que nos parecem estreitos, confusos e sem respostas certeiras.

O cansaço que sentimos, drena-nos a vitalidade, e quando damos conta, sentimo-nos como se estivéssemos no “fundo de um poço”.

Nesta altura é difícil acreditar na possibilidade de sairmos ilesos da terra lamacenta, onde estamos acocorados sem a força necessária para subirmos aquelas paredes, e dali sair.

Na verdade, o fundo do poço, pode ser uma experiência necessária de onde não se sai ileso, mas de onde se pode sair realmente transformado.

Pode ser tão indesejado, quanto sagrado, pois nele ecoa em simultâneo, o eco do nosso silencio e o ruidoso ruido das nossas ilusões.

O lodo, a escuridão, o frio húmido, e a sensação de que aquele momento não irá passar nunca mais, relembram-nos que na nossa vida já fizemos outras descidas, e no tempo certo pudemos subir com mais força, lucidez e dignidade.

O fundo do poço pode até ser sentido como um lugar de dor, porém, não tem de ser um lugar de sofrimento, mas para isso é preciso não lhe resistir. Acolhê-lo ainda que doa, honrá-lo ainda que seja duro de suportar.

Na verdade, é um lugar iniciático, que nos levará para outros ângulos da nossa consciência, obrigando-nos a olhar mais para dentro e menos para fora, trazendo assim até nós a certeza, de que todo o poço tem o seu peso e a sua leveza também.

De que toda a escuridão tem a sua luz e o seu propósito também.

E, que assim como, para florescer o lótus precisa do seu lodo, para gerar mais vida, a vida precisa de algumas mortes também!