Tenho visto, e eu própria tomei contacto com isso há algum tempo atrás, que superar o fim de um relacionamento abusivo, muitas vezes significa empurrar para baixo do tapete, o trauma que o mesmo pode ter deixado acocorado nos nossos corpos, e que pode realmente ficar escondido durante anos.
Apesar, de cada um de nós ter a sua própria forma de “lidar” com a dor da separação, ignorar nunca será o mesmo que superar.
Se, precisamos passar para a outra margem do rio, e existe uma ponte, só existem duas escolhas – ir a nado pelo rio, ousar fazer a travessia, pela ponte.
Superar o fim de um relacionamento, principalmente se o mesmo nos deixou feridas profundas, impõe uma travessia de reencontro com tudo o que nos habita, e em alguns casos, iremos necessitar de apoio para que possamos renegociar através dos nossos recursos o processo traumático que em nós se instalou, impedindo-nos de viver a nossa vida na sua plenitude.
Esta travessia, que requer coragem, irá conduzir-nos, num espaço de tempo, que poderá aparentar ser demasiado lento, pois queremos deixar de sentir aquela dor que nos esmaga, porém de forma inteligente e cadenciada, irá ajudar-nos aos poucos a processar a experiência dolorosa e a elaborar novas memórias. No fundo, iremos cicatrizar uma ferida e, se repararmos qualquer cicatriz é mais forte do que a pele que existe antes da mesma acontecer.
A reaproximação a quem somos, sem a permanência do outro nas nossas vidas, leva-nos em pequenos passos, na “direcção-certa”.
E, a que é que me refiro, quando falo da direcção certa?
Refiro-me ao movimento de prosseguir, apesar da dor, permitindo-se sentir, incluindo todas as suas partes.
Aprender a não buscar “pensos-rápidos-em-forma-de-nova-relação” é um dos convites que a vida faz.
Quando a solidão aperta e a dor parece espremer o melhor de nós, um analgésico é a ilusória solução. Só que esta “solução”, a seu tempo anunciará, que o que não quis ver, acabará um dia a olhar para si destemidamente e…provavelmente tudo se repetirá.
Quando um relacionamento vinca na nossa epiderme marcas traumáticas, assemelha-se a uma pilha de loiça, que fica por lavar, podemos ignorá-la todos os dias, que se continuarmos a usar mais, um acumulo excessivo acontecerá, promovendo uma cozinha desarrumada, bem como um cheiro nauseabundo.
Na superação de um relacionamento abusivo, mais importante do que se desapegar do outro, é aprender a associar-se a si mesma, a reconhecer e a honrar a mulher que é, aquela que se permitiu ser desvalorizada, humilhada e “não-vista”, por alguém que só lhe fez um grande favor – mostrar-lhe o quanto ainda se maltrata a si mesma, o que quanto ainda se desrespeita, o quanto o seu amor próprio ainda está em défice.
Para resgatá-lo, talvez precise de ajuda e isso é maravilhoso.
Afinal, há mais pessoas que passaram por aquilo que está a passar, logo NÃO ESTÁ SÓ, mesmo que os dias cinzentos, contrariem isto e lhe digam o contrário.