Como muitos de nós, detive o meu corpo e a minha alma, em anos de toxicidade.
A minha esperança era pueril, pois acreditava encontrar nela a pureza que desconhecia ali ser impossível de encontrar.
Parece estúpido eu sei.
Estúpido, incongruente e sem qualquer sentido, principalmente para quem não passou por estas dinâmicas e por isso dificilmente poderá sequer considera-las, e observá-las sem julgamento.
Hoje, sei porque lá permaneci.
Por isso, escrevo para todos aqueles que ousem ter coragem, dignidade e ousadia de mergulhar dentro de si mesmos, abrindo campos internos subtis, para puderem saber também porque permanecem em locais inóspitos, com esperança de encontrar neles luz, paz, reciprocidade e amor.
O passado pode sem dúvida, impactar o nosso presente.
Esta não é no entanto, uma sentença de morte, mas sim de vida, e de potencial de crescimento.
As situações traumáticas que vivemos, ficam enroladas em nós que até serem vistas, renegociadas e integradas, caso contrário ficarão bem escondidas, aparentemente sossegadas, mas perversamente poderão levar-nos a repetir durante décadas, padrões tóxicos, que acabam por nos soarem como “normais”.
Na verdade, podemos não só normalizar o abuso, como também inconscientemente, escolhermos o tóxico que ele contém em detrimento do vazio a que a sua ausência ilusoriamente nos conduz.
Na repetição dos aguerridos padrões de violência verbal e física, por incrível que possa parecer, sempre que o tóxico se “cala”, o silêncio interno, de onde surge a verdade dos factos, pode tornar-se mais ensurdecedor do que a voz dos abusos a que nos sujeitávamos.
Até sermos tocados pelo autoconhecimento e pela consciência, lidar com o vazio, é lidar com a mais profunda escuridão que nos habita, é lidar com os nossos medos, as nossas pulsões reprimidas, com o desconhecido que nos apavora conhecer.
O vazio, pode chegar-nos através da dor de solidão, da sensação de um buraco aberto no nosso peito, de desamparo, de incompreensão, de incapacidade de encontrarmos rumo e sentido para as nossas vidas,
Pensar, agir e sentir, podem tornar-se tarefas estranhas e desequilibradas. Ou pensamos compulsivamente e não conseguimos agir, ou não paramos, porem não agimos com foco, ou paramos, mas ignoramos o que sentimos.
Já o tóxico tem um movimento, que nos parece mais familiar e suportável.
Afinal, criou a sua própria identidade em nós, pois após anos de repetição, estranhamente pode confundir-se com a nossa própria identidade.
Eu própria me recordo, dos dias em que me sentia abusada, verbalmente, financeiramente, espiritualmente, e permitia, desculpando sempre o outro, pois a minha falta de amor próprio, encontrava sempre um “bom-motivo”, para desculpar, que o outro agisse daquela forma. Apesar do desconforto, da tristeza, da impotência, e das conversas indetermináveis, a angústia passou a engolir-me, sem que a minha permissão, sequer o permitisse.
O esforço que eu precisava fazer, para lhe explicar, que gritar daquela maneira era abuso, que me sentia usada, ignorada, injustiçada, nada mais era que a minha tentativa vã, e a evitação do meu próprio vazio, que sabia já ter o abandono acoplado.
Claro está, que era eu quem aceitava os abusos, querendo explicar constantemente ao outro, o que estava distorcido, mas evitando “explicar” a mim mesma, porque me banhava naquelas águas tóxicas, mantendo a esperança, que um dia as mesmas pudessem vir a ser límpidas e serenas.
Hoje sei, que este “desconfortavelmente-confortável”, este perverso namoro entre o tóxico e o vazio, não precisa mais existir.
O que o outro faz, o outro faz.
O que nós sentimos e fazemos com aquilo que o outro faz, é nosso, diz-nos respeito, é parte da nossa história.
Podemos escolher a cor da tinta com a qual a queremos escrever e cor do papel que queremos usar, não será isto maravilhoso?