Em sequência do último podcast que gravei, denominado “O cair do véu”, senti vontade de iniciar este texto com esta reflexão:
É preciso tanto para ser um ser humano completo (…)
É preciso abraçar o mundo como um amante.
É preciso aceitar a dor como condição de existência.
É preciso considerar a dúvida e a escuridão como o custo do conhecimento.
É preciso ter uma vontade teimosa no conflito, mas sempre optar pela aceitação total de todas as consequências de viver e morrer.
(Morris West – Os sapatos do pescador)
Tocando este tema, e trazendo-o o mais possível para a nossa consciência, não será difícil entender que o mesmo é provocativo em nós, trazendo consigo em simultâneo, uma espécie de intrusão, quando constatamos que a dúvida pode irromper dentro de nós vinda de um lugar aparentemente escuro, desconfortável e desconhecido, que nos causa resistência e do qual se pudéssemos certamente fugiríamos.
Obviamente, que esta dinâmica fazendo parte integrante da nossa existência, e sendo muitas vezes um desafio connosco mesmos, acaba por se tornar também um desafio nas nossas relações, que nada mais são que motores de busca perfeitos dos nossos temas escondidos.
A dúvida abre espaço não para a certeza, mas sim para a aceitação.
A aceitação de todas as partes, partes simples e complexas que nos habitam, instintivamente preservando todas as formas que para nós signifiquem vida, e evitando todas as formas de para nós signifiquem morte.
Queremos certezas de tudo.
Garantias de que as ruínas nunca nos habitarão, garantias de que podemos controlar as zonas que nos confortam, e evitar as que nos desconfortam e amedrontam.
Garantias de que aquele amor terá um “final-feliz”, ou melhor ainda, nunca terá final algum.
Garantias de permanência, numa vida que se move toda ela impermanentemente.
Queremos certezas e somos constantemente assaltados pelas dúvidas que as invalidam, parece-nos que poderia ser mais fácil, não é?
A vida sabe, precisamos confiar.
Só no escuro da dúvida, na manifestação do incerto, do recôndito, do corporificado em nós, conseguimos sacralizar e consagrar o nosso fluxo de vida.
Abrimo-nos à escuridão, honrá-la, acolhê-la, é trazer até nós um campo de possibilidades, onde a única certeza, é que aconteça o que acontecer a vida é sábia, e a Luz imperará sempre sobre a escuridão.
Confiemos!