Ninguém nasce de coração partido.
Eu não nasci também.
Nasci a saber que amar é um dom disponível, para todos que dele queiram usufruir…
Porém, tal como todos nós precisei de aprender, tanto aquilo que o amor não é, como aquilo que faz com que um coração, “desligado” da cabeça, ame de maneira a nele albergar inquilinos, que nem sempre são confiáveis arrendatários.
Assim, foi na ambivalência da vida, com muita dor, mas também com uma “especial-curiosidade”, precisei de reconhecer que aqueles que mais abalroaram e violaram o meu coração, foram sem dúvida os mesmos que trouxeram até mim a certeza de que mereço cada vez mais conhecer o terreno fértil que me habita, pois foi este que muitas vezes nos meus relacionamentos, permitiu o “impermitível”.
Em mergulhos arqueológicos na minha própria biografia, e através do amor que me habita, fui constatando que o coração pode continuar a bater, apesar das cicatrizes que o habitam.
A sua pulsação por vezes muda, é um facto.
Ora fica acelerado, ora sussurra a sua voz praticamente muda, sem som possível de se escutar, mas…ainda assim, mesmo dorido, triste, amargurado, traído, continua o seu batimento, relembrando-nos que tudo na vida tem a sua própria pulsação, até mesmo, as cicatrizes.
E, foi com a pulsação das cicatrizes do meu coração, feridas capazes de revelarem com dignidade tudo aquilo que o amor não é, que escutei enciclopédias de histórias, de mulheres que tal como eu, viram os seus corações abalroados, partidos, mas que, com resiliência e coragem os foram consertando, dia após dia, experiência após experiência.
Mulheres que sabem a linguagem do coração, e por isso conhecem os mistérios do Amor.
Nas suas almas, algo não as faz desistir, pois continuam a saber, que um dia irão encontrar, inquilinos dignos da lealdade dos seus corações.
Sabem, que não há príncipes encantados, pois diferenciam bem lendas e mitos, de verdade e maturidade.
Sabem também que, quem de príncipe se disfarça, nada mais é que uma “farsa-com-pernas”, que acabará sempre por deixar cair a máscara.
Estas mulheres que conhecem a linguagem do coração, sabem-se grandes, quem sabe, por tantas vezes, terem aceite que o outro as apequenasse, e por medo de abandono, se terem encolhido e escolhido nisso acreditar.
São mulheres com cicatrizes, sim!
Mas acredito, que são estas mulheres que através dos seus próprios processos alquímicos, se tornam capazes de amparar outras mulheres, quando os embates do desamor surgem e parecem não deixar sequer espaço para respirar.
Acredito também que há corações curados, mas que terão para sempre cicatrizes, principalmente quando não conseguem abstrair-se de certas memórias e recordações. Estas cicatrizes, serão como guias espirituais, capazes de nos indicar subtilmente caminhos mais sóbrios, mais verdadeiros, mais confiáveis.
Com o tempo, com perdas e traições, fui aprendendo a honrar as minhas próprias cicatrizes. Deixei-me de duelos com elas, e tornei-as o mais que pude, minhas aliadas.
Percebi, que não estão ali para me defender de nada, mas sim para me proteger de tudo aquilo que não seja verdade, transparência e confiança numa relação. Estão lá, para me lembrar os custos daquilo que permiti, mas também os créditos daquilo que com isso aprendi.
Por isso, nem que seja por estar aqui a partilhar este texto, já valeu a pena o que vivi!