Tudo na vida está absolutamente certo, mas que possamos aprender aquilo que precisamos de aprender. Terminar uma relação, regra geral, não é um processo fácil.
O facto de querermos entender, de querermos justificar as razões pelas quais aquilo nos aconteceu, dificulta-nos o caminho, pois contraria a realidade de que as perdas, não têm como propósito ou formato, o entendimento, através da lógica, mas sim, a aceitação através de uma longa caminhada, que nos poderá capacitar e despertar para um outro tipo de entendimento – aquele que nos conduz para a alquímica travessia, de atravessando a dor, uma nova dimensão espiritual, se abrir dentro de nós.
Se olharmos para a vida com os olhos da alma, na verdade, nada nem ninguém se perde.
O amor não tem condições nem rupturas, já as relações essas sim, são condicionais e condicionantes.
Uma ruptura é uma perda e por isso, convida-nos sempre para um processo de luto.
Este processo, não existe para que possamos esquecer rapidamente a outra pessoa, mas sim para aprendermos a adaptarmo-nos às novas condições de vida. No fundo, é uma reacção natural, sempre que um vínculo importante é rompido.
O luto é também um processo de transformação e resignificação, da nossa relação com nós mesmos, e com quem apesar de ter “morrido-fora-de-nós”, continua vivo cá dentro.
Poderíamos até dizer, que é um chamamento subtil da vida, para nos deixarmos transformar pela experiência, o que pode ser bastante poderoso a todos os níveis.
Atravessar o processo de luto
Não acredito que se “ultrapassem” perdas ou situações nas nossas vidas. Para mim, “ultrapassagens”, são os carros que as fazem na estrada, e não nós humanos, enquanto seres-relacionais e relacionáveis.
Acredito sim, em travessias.
Uma perda significativa, pode sem dúvida, ser uma noite escura para a nossa alma.
Tal como diziam os antigos sábios alquimistas, todo o processo alquímico, acontece pelo menos em quatro fases distintas.
A primeira, está associada ao elemento Terra. Como início do processo, é uma fase escura, onde nada se consegue ver, onde o embate inicial é sentido e regra geral, acontece também uma fase da negação. Talvez, esta possa ser uma das etapas mais dolorosas do processo. Chamaram-lhe Nigredo.
Associada ao elemento Água, chega a segunda fase, que nos convida a lidar com a dor daquilo que estamos a sentir, convidando-nos para um momento de paragem e de não-resistência. Aqui, o choro, e a tristeza, são nossos aliados diários. Os alquimistas chamaram-lhe Albedo.
Associado à terceira fase, está o elemento Ar. Aqui, ainda que tímida, começa a brotar de nós uma certa esperança. Começamos a olhar para aquilo que nos está a acontecer, com um pouco mais de distância. Pensamentos novos, ainda se misturam com os mais antigos e dolorosos, mas aos poucos despertamos para uma lucidez e consciência que não tínhamos antes de o processo ser iniciado, por isso esta pode ser, uma altura, onde percebemos, o quanto os nossos valores eram arcaicos. A esta fase, os alquimistas, chamaram Citredo.
E, finalmente, depois desta longa travessia, chegamos à fase associada ao Fogo, ao fogo da esperança, onde nascemos integralmente para uma nova realidade interior. Voltamos a acreditar, agora mais transformados, com menos ilusão, mais verdade, maturidade e maior lucidez. É a “fase ao rubro”, à qual os alquimistas chamavam Rubedo.
Aceitamos a travessia, ou poderemos evitá-la?
A vida é simples, são apenas escolhas.
O livre arbítrio, de que vimos dotados, obriga-nos sempre a escolher.
Podemos, pois, aceitar este caminho, atravessando as várias fases que o mesmo tem para nos oferecer, sem reprimirmos as nossas emoções, sem esconder as nossas tristezas, assumindo com humildade a nossa parte de responsabilidade no processo.
Ou por outro lado, taparmos a loiça suja com um pano, na esperança de que ela se lave sozinha, sabotando e evitando assim a travessia, através de várias distracções, entre as quais encontrar rapidamente um(a) substituto(a), para ilusoriamente nos aliviar a dor que estamos a sentir. Como em tudo na vida, a escolha cabe a cada um de nós.
Lembre-se, no entanto, que uma ruptura, no início nos pode parecer-nos uma fatalidade, mas no fundo é uma forma sábia a que a vida, nos convida, para uma real aprendizagem e transformação.
Apesar, das oscilações internas que esta travessia nos impõe, picos de tristeza, perda de sentido e até medo do futuro, há vida a acontecer e a querer brotar de dentro de nós.
Estejamos, pois, atentos a essa vida, não só para podermos recuperar aos poucos a nossa imunidade emocional, como também para nos habilitarmos ao tesouro que é a descoberta de quem verdadeiramente somos, com e sem o outro.
Na verdade, há uma simplicidade intrínseca a tudo isto – as pessoas encontram-se, quando têm algo para aprender uma com a outra, e desencontram-se quando deixam de ter!