“Nunca é tarde demais para ter uma infância feliz”
(análise biodinâmica)
Em todos nós habita uma infância, em todos nós vive uma criança.
Nem todos passámos por situações abusivas e disfuncionais, no entanto todos sem excepçao, nascemos de um pai e de uma mãe, que por sua vez nasceram de um pai e de uma mãe também.
Transportamos ancestralidade e história, isso é indubitável.
O autor Charles Whitfield, tem uma teoria que ressoa bastante comigo.
Ele diz que todas as nossas histórias têm três partes; o que teríamos gostado que acontecesse, o que aconteceu realmente, e o que está a acontecer agora, ou seja de que forma vivemos a realidade cotidiana, no que diz respeito à nossa própria história.
Muitos de nós passámos por experiências aparentemente funcionais, que não classificaríamos como traumas, porém recebemos as mesmas com aparente “disfuncionalidade” e mais tarde estas impactaram-nos de forma traumática.
Outros, porém, passando por situações traumáticas, “usaram” o traumatização e a “disfuncionalidade” como trampolim, para se alinharem com a sua verdade interior, recordo entre outros, o exemplo de Oprah Winfrey.
A infância pode realmente ser um lugar seguro para alguns, e para outros, um lugar inóspito e constrangedor.
Integrá-la, não significa viver das suas feridas, mas sim aprender a viver com as mesmas, dando-lhes o lugar que merecem em nós.
Em simultâneo, podemos com vulnerabilidade e coragem, ousar visitá-las para que, dando-lhes voz, estas se sintam por nós escutadas.
O que acontece ao nosso corpo, quando as feridas não são olhadas, acolhidas e tratadas? Poderão vir a causar infecções difíceis de curar e até em grau avançado, provocar-nos uma septicémia, capaz de nos conduzir rapidamente à morte.
Usei esta analogia, pois considero que a mesma é transversal, às nossas feridas internas, que da mesma forma, se não forem acolhidas e “tratadas”, poderão causar-nos mais tarde um emaranhado de conflitos, cuja teia nos levará para dinâmicas várias, entre as quais o abuso, o desamor e a morte de quem nascemos para SER.
Disto se falou muito nas últimas décadas, tendo inclusive surgido o termo “Criança interior”, cujo propósito é, levar-nos a olhar para a importância de sabermos exactamente quem é esta criança que dentro de nós reside, e de nos permitirmos resgatá-la, dando-lhe o espaço que provavelmente ela não teve, no tempo que lhe era devido.
Abro um parenteses para sugerir que não confunda, (pois já observei esta confusão algumas vezes), “criança-interior”, com “criancice”, ou “imaturidade”.
Carl Jung, um dos grandes impulsionadores da psicologia analítica, definiu-a como a “Criança Divina”, e psicoterapeutas como Alice Miller e Donald Winnicott, referem-se à mesma como “the True Self”, ou seja, o “Eu Verdadeiro” que existe em cada um de nós. A nossa parte criativa, vivaça, que se empolga com as situações, que quer descobrir o mundo fora e dentro de si mesma, a partir daquilo que a anima, aquele ânimo profundo que faz parte da sua verdadeira identidade.
Relembro que a etimologia da palavra “ânimo”, provém do latim “animus”, e significa alma, coração e vontade genuína.
Ora, são exactamente estas características do nosso Eu Verdadeiro, que começam desde cedo a não ser nutridas, a ser caladas, mutiladas e abafadas, pela nossa cultura, família de origem, métodos de ensino, rígidas regras iguais para todos, padrões, crenças e expectativas futuras sobre “quem-temos-de-ser” e não “quem-verdadeiramente-somos”.
Naturalmente vamos negando a nossa essência, a tal “criança divina” viva e vivaça, pronta para viver e se expressar. Ao ser negada, e não-nutrida, precisamos de criar uma outra (não-verdadeira), para nos conseguirmos adaptar às condições daquilo que nos é proposto, em busca de nos sentirmos seguros, amados, e fiéis, áquilo que, principalmente os nossos pais esperam de nós. Entre tantos outros sentimentos, começamos a sentir vergonha e culpa, sempre que não conseguimos ser o que esperam que sejamos.
A meu ver, e ao contrário daquilo que se acredita, o “processo de involução”, começa exactamente aqui.
Negligenciada a verdade, construímos um “Eu-dependente-daquilo-que-é-expectável”, para que, com isso nos possamos sentir aceites, passando a alimentar esse “falso-Eu”, como se de verdadeiro se tratasse.
Esta é uma das origens de muitas das nossas feridas, que na fase adulta, poderão ter grande impacto na relação que mantemos com nós mesmos e também com o outro.
Feridas como, o abandono, a traição, a rejeição, e sentimentos como a vergonha, de que tão pouco se fala, podem estar na origem de muitos dos nossos traumas e comportamentos.
ACOLHER E PROTEGER A CRIANÇA
Confesso que quando em terapia, a minha terapeuta me falou deste tema pela primeira vez, não entendi e até senti que estava a fazer algum tipo de “julgamento” depreciativo. Estava fechada para contactar com a minha criança e abrir-me a conhece-la, acolhe-la, dando-lhe o espaço que merece, tem-me ajudado bastante a superar diferentes situações na minha vida.
Com o trabalho que fui fazendo, comecei a perceber que toda aquela dor de abandono, que após uma relação tóxica senti, não estava ali pela primeira vez.
Afinal, era a criança ferida, que estava a arrastar o adulto, a levá-lo para uma dor antiga, a esgravatar-lhe a ferida, para que pudesse ver vista, honrada, reconhecida e para que fosse finalmente o adulto a dar-lhe o suporte que ela sempre precisou.
Tenho bastante presente na minha memória, o dia em que partilhava um momento muito difícil, com uma irmã de alma e de coração, e ela me disse – “Cris, o bebé é teu, não o ponhas no colo do outro” – ou seja, o outro é apenas alguém que a Vida encontra para nos relembrar que é a nós que cabe tomar conta do nosso “bebé-interno” e não a mais ninguém.
Deixe de negligenciar as suas necessidades, seja honesta(o) consigo e com o outro em relação a essas mesmas necessidades, aprenda a exprimir sem medo aquilo que sente.
Faça do passado, um aliado na sua aprendizagem e não um fundamento justificativo para as suas dificuldades.
E, por último peça ajuda se precisar.
Conservar as suas feridas como se fossem atum em lata, irá apodrece-las, e mais cedo ou mais tarde, quando menos esperar, será inevitavelmente por elas visitada(o).