A CURA NÃO É UM DESTINO COM CHEGADA PREVISTA.

Não me canso de falar em processo, desmistificando a ideia da mudança, como algo cénico, rápido e mágico em nós.

A vida, têm-me revelado, que toda a mudança, pede inevitavelmente transformação e que a este pedido agrega-se muitas vezes, resistência.

Ecoicamente, queremos manter o que conhecemos, no entanto quando a nossa alma está envolvida, o apelo é aproximarmo-nos do nosso propósito maior.

Isto, permite-nos observar com facilidade, que sempre que queremos encaixar peças em puzzles que não lhes pertencem, só temos dois caminhos – embater numa parede de aço e ficarmos em pedaços, ou rendermo-nos com humildade à sacralidade do desconhecido.

Esta rendição implica quase sempre, descer vales, subir montanhas, fechar e abrir cortinas, chorar um dia todo, rir no seguinte, sair de casa sem destino, sem rumo interno, não conseguir fazer nada, dormir mal ou não dormir, comer mal, não comer ou comer em excesso, enfim, render-se é conseguir escutar dentro de nós, aquela voz silenciosa que sussurra, que alturas há, que não é preciso saber nada, só aceitar aquilo que até nós chega.

Queremos curar o que nos dói, como se isso pudesse acontecer com um analgésico.

Como não acontece, ficamos irritados, impacientes e…mais doridos ainda.

Mas, e…se a cura, residir nas nossas próprias feridas, isto mudaria alguma coisa?

Ou seja, a cura não é um destino com chegada prevista, mas sim um processo de transformação, de renegociação de trauma, de validação dos nossos recursos. Curiosamente, muitos deles só são revelados, porque foram vitais, para que conseguíssemos cuidar das feridas que nos habitam, dando-lhes o aconchego que merecem.

É importante honrá-las como possibilidade de cura, afinal fazem parte da nossa história.

E, apesar de sermos muito mais do que a nossa história, o que fazemos com a mesma é o grande desafio de transcendência, num mundo de opostos, onde um dia escolhemos encarnar.