Há alturas das nossas vidas que apesar de não serem lembradas todos os dias, nunca são totalmente esquecidas.
Tempos de transição, por vezes apertados e que contêm em si a incerteza de conseguirmos continuar a viagem mantendo-nos de pé e trilhando o caminho que nos é proposto.
Talvez estes possam ser tempos em que precisaremos de aceitar, que gatinhar também é uma forma de locomoção, e que algumas vezes podemos fazê-lo, quando a vida assim nos convoca.
Hoje, lembrei-me de um desses tempos de ofusca transição que vivi.
Estava tão estilhaçada, que me lembro de olhar para o espelho e ausente de mim mesma perguntar:
– Onde está aquela mulher capaz? Onde está aquela mulher de deixava as ideias brotarem e lhes dava vida? Onde está aquela mulher alegre, que gosta de dançar, de rir e de viver?
As respostas não chegavam, pois em mim só existia dor.
Fui caminhando e aceitando a cada segundo que aquele não era um tempo em que tinha de contrariar aquilo que estava a sentir e manter-me de pé, mas sim um tempo em que tinha o direito de me sentar, de me deitar, de dar espaço a que naturalmente o meu corpo processasse o momento angustiante que parecia encolher-me a alma.
Ao deixar de combater comigo mesma, a mulher capaz, com vida, começou lentamente a surgir e a dar nova forma a novas ideias. Aos poucos o espelho deixou de ser um ringue de boxe e passou a ser reflexo de uma travessia de auto-respeito, de auto compaixão e de amor próprio.
A tristeza, a angústia e a falta de sentido, puderam aprender a conviver com o sorriso das pequenas coisas, com a alegria pulsante do cântico matinal das aves, com a certeza de que não há erros, nem desvios, só experiências, aprendizagens e AMOR!