ABUSO NARCÍSICO: BREVE VIAGEM AO “ENCANTADO-MUNDO” DE PERVERSOS ILUSIONISTAS

Infelizmente em Portugal, muito pouco ou nada se fala sobre este tema, o que, por desconhecimento, acaba por ter bastante impacto nas vítimas deste tipo de abuso.

Neste texto e, apenas como introdução, irei dar uma breve pincelada naquilo que é o narcisismo, fazendo uma pequena viagem a um estranho mundo, onde a perversidade e o encantamento se unem, e onde, regra geral é muito difícil explicar aos outros como é viver uma experiência com alguém com esta perturbação/transtorno de personalidade (como é classificada pelo manual das doenças mentais – DSMV).

Não é meu propósito aprofundar o narcisismo, mas sim trazer mais consciência, psico-educação, e algumas palavras que possam validar e apoiar quem foi ou ainda é, vítima deste tipo de abuso nas suas relações (des)amorosas.

Enquanto transtorno de personalidade, o narcisismo tem vários “graus” ou “níveis”, existindo alguns critérios que podem avaliar na pessoa, se apenas existem traços narcísicos ( que todos temos, e são saudáveis), ou se por outro lado se trata mesmo de uma patologia, ou de um transtorno suficientemente “notório”, que levará o narcisista a ter características muito peculiares nas suas relações, bem como um “modus operandis” capaz de causar danos bastante impactantes nas pessoas que “lhe vão passando pelas mãos”

É importante realçar que este transtorno é transversal a ambos os géneros, apesar de uma meta-análise realizada nos EUA, ter constatado, que é mais verificado no sexo masculino.

Basicamente, os seus comportamentos, que podem ser mais óbvios ou mais encobertos, baseiam-se numa máscara, ou “Falso-Self”, que precisaram de criar para conseguir sobreviver a experiências que viveram enquanto crianças, o que nos leva a concluir que o narcisismo pode ser efectivamente uma “defesa de carácter”, que os leva a manterem-se muito infantis, e até a fazerem muitas “birras”, apesar de por trás disto estarem pessoas muitíssimo calculistas e estrategas.

Obviamente que, esta não pode servir de desculpa para os danos que podem causar nos outros, até porque regra geral este com este tipo de carácter, dificilmente iniciam ou dão continuidade a processos terapêuticos, pois a “culpa é sempre dos outros”, preferindo continuar a manter a sua máscara, fingindo ser quem não são, o que mais cedo ou mais tarde (apesar de poder demorar anos), acabará por cair.

Nas relações amorosas têm vários “modus operandis”, os quais aprofundarei noutros textos.

Regra geral, numa primeira fase, são aparentemente tudo aquilo que de melhor existe. Atenciosos, disponíveis, mimetizam com perícia, todos os gostos do outro, bombardeando-o de “amor”, de elogios, e fazendo-o acreditar que são mesmo “raros” e “especiais”.

Verdadeiros ilusionistas, fazem das suas relações fontes de suprimento, seja este financeiro, social ou outra qualquer que lhes traga benefícios e visibilidade, ainda que no caso dos mais encobertos e dos mais passivo-agressivos, esta vontade de serem vistos, esteja mascarada de uma estranha e falsa modéstia que representam como bons actores por onde passam.

Parece difícil escapar ao seu charme e ao seu encantamento, por isso “tratam” de avançar rapidamente nas suas relações amorosas, usando a outra pessoa para garantir a sua fonte de suprimento, conquistando assim, família, amigos, filhos, enfim, é preciso que todos gostem deles, para que não deixem de ter dúvidas de que aquele suprimento lhes será retirado.

Podemos dizer, que na sua essência o narcisista nada mais é que um oportunista, que nunca assume responsabilidade de nada, culpando tudo e todos pelos seus próprios jogos, que com mais ou menos perversidade gosta de fazer, como por exemplo, os castigos que gostam de usar, entre eles, os mais comuns são, o “tratamento de silêncio”, a indiferença sexual, que vai oscilando (se ainda lhe for útil) com pequenos bombardeios que vão mantendo a outra pessoa “presa” naquela teia traumática.

Quem passou ou passa por isto, é vítima, sim.

É claro, que tem de ter terreno fértil para se magnetizar com este tipo de pessoa. Existem vários tipos de terreno, mas sem dúvida a empatia, a carência afectiva e a credulidade são “os eleitos por maioria absoluta”. 😊

Devolver à vítima, a responsabilidade dos abusos subtis porque passou, é o mesmo que “culpar” uma mãe, por ter dado à luz um bebé sem um membro ou com algum tipo de deficiência.

O abuso narcísico, deixa danos invisíveis aos olhos dos outros, mas que impedem muitas vezes durante anos a vida de quem por isto passou.

Quando termina, quase sempre quando o narcisista encontra outra fonte de suprimento, não estamos perante um “coração partido”, mas sim perante alguém que está a viver um Stress pós-Traumático.

Ninguém entende, só quem passou pelo mesmo.

É para essas pessoas que escrevo, sei que as outras dificilmente entenderão.

Escrevo não só por elas, mas também por mim, que sobrevivi.

Infelizmente, precisei de ir para fora de Portugal, para ter ajuda especializada neste tipo de abuso, parece estranho, não é?

Por isso, prometi a mim mesma doar o meu conhecimento e aprendizagem a quem tenha passado, ou esteja a passar por este tipo de abuso, ou seja, a quem tenha viajado, neste mundo, tão aparentemente “encantado”, que é viagem a que somos convidados quando acreditamos que é possível viver de forma plena e consciente, com um perverso narcisista.