PADRÕES ABUSIVOS: POR QUE ACEITAMOS MIGALHAS?

Um dia li um poema de Miguel Torga que entre outras coisas, dizia, “de nenhum fruto queiras somente a metade”. Por ter chegado até mim na hora exacta, e me ter tocado profundamente, decidi imprimi-lo, emoldurá-lo e colocá-lo na parede da sala onde faço os atendimentos.

Foi a partir dele, que numa consulta alguém me disse “sabe, não concordo nada com o texto que tem naquele quadro, pois no meu caso, prefiro comer um fruto pela metade do que não comer fruto nenhum”.

Ambas concordámos em iniciar a sessão a partir daquela sua convicção. Deambulando por entranhas, fomos avançando, visitando locais internos onde habitava toxicidade, e outros locais sãos que esperavam reciprocidade e verdadeiro amor, o que não estava de todo a acontecer.

Era fácil perceber que aquela pessoa, permanecia numa relação onde recebia “migalhinhas”, “frutos pela metade”, e onde para não lidar com a verdade, precisava iludir-se e acreditar que comia “pães e frutos inteiros”.

Com o fluir da conversa, acabou por entender e assumir, que se sentia “estranhamente-abusada” por continuar a permitir, exatamente o oposto daquilo que queria numa relação.

Através de um profundo processo terapêutico, pôde finalmente contactar com os seus medos mais profundos, com os seus traumas e dando-lhes voz, terminou aquele “martírio”, segundo ela pouco ou nada recebia.

A nossa falta de amor próprio, as nossas carências e a convicção profunda de que não somos merecedores de frutos inteiros, faz-nos deambular nestas relações secas, onde cheios de sede, bebemos gotinhas de água inquinada, querendo acreditar que, de “água-benta” se trata.

Beber gotinhas na esperança de matar a sede, é viver num árido deserto, sustentados pela miragem de encontrar um oásis, onde a nossa sede finalmente saciará.

Eu mesma no meu passado, aceitei muito menos do que aquilo que hoje sei que mereço.

Comportava-me no oposto daquilo que dizia, ou seja, era capaz de fazer grandes discursos na esperança de que o outro percebesse que eu não aceitava gotinhas, porém na prática, não só as aceitava, como ainda incarnava o ilusório papel da ilusionista, que por magia, era capaz de transformar as ditas gotinhas, em fontes abundantes de água pura e cristalina. No fundo, queria tanto que assim fosse, que era assim que me obrigava a ver.

Esta visão distorcida, daquilo que realmente merecemos, começa a tornar-se cada vez mais nítida à medida que o nosso amor próprio cresce, e que lidamos de frente com todas as nossas partes, aprendemos a escutá-las e a acolhê-las.

Com o tempo e com as diferentes experiências pude também constatar, que muitas vezes não se trata só de pedir “mais” e de aceitar “menos”, pois a maior parte das vezes, o que está em causa não é a quantidade, mas sim a qualidade inerente a esta mesma quantidade.

Lembro-me, de um dia, o meu namorado me ter dito que não podia fazer mais do que aquilo que estava naquele momento a fazer.

Senti de imediato, que a nossa comunicação não estava em sintonia, pois na verdade, eu não pedia que ele fizesse mais, mas sim que em conjunto pudéssemos fazer diferente, o que era bastante claro que traria à nossa relação o adubo necessário ao seu saudável crescimento.

No fundo, o que eu estava a sentir era um abissal decréscimo de água fresca, que outrora tinha sido vontade de ambos fazer jorrar na nossa relação, e ao mesmo tempo, a ter que lidar com o facto de que ele não estava efectivamente disposto a fazer de forma diferente.

Cada dia que passava, sentia-me mais rasgada nos meus valores e na minha autoestima.

De cada migalha que recebia, fazia um pão gigante. O esforço inerente a levedar estas mesmas migalhas era atroz. Criava programas a dois, inventava passeios, picnics, e resultado era sempre o mesmo, frustração, mais fome, mais sede e mais certeza de que levedar migalhas é das tarefas mais desgastantes que podemos executar.

Habituamo-nos a beber gotinhas de água inquinada, a comer frutos pela metade, e a aceitar migalhinhas. Mudar isto, significa tornar conscientes as nossas emoções mais profundas, trazer à tona os nossos medos de abandono, de rejeição, de solidão.

Enquanto fazemos este trabalho, podemos sempre escolher.

Será útil, no entanto, lembrar que cada escolha nossa, traz agarrada a si, uma consequência.

Se me quero sentir amada e bem-amada, então preciso promover o amor próprio. Ao escolher promovê-lo, há escolhas que, como peças de um puzzle, deixam de ter forma de encaixar noutras.

Ninguém merece mendigar, aquilo a que naturalmente tem direito.

Tendo sede, e uma fonte de água pura, ao seu dispor, porque é que insiste numa relação onde este direito lhe é vedado?

Porque é que ainda não encontrou essa fonte?

Não sei, como deve calcular 😊

No entanto para que possa reflectir deixo-lhe uma frase que diz:

“Quem renuncia ao que está perto, ganhará o que está longe.”

Com todo o respeito pelo seu autor, e neste contexto, eu reformularia assim:

– Quem consegue renunciar ao pouquinho que ilusoriamente lhe parece “perto”, mas que na realidade até sabe que está “longe”, ganhará o muito que lhe parecendo “longe”, está mesmo ali, muito, mas muito “perto”!