NÃO SE MORRE DE AMOR, MAS SIM DE FRIO.

Entrou de tarde, no rio, retirou-a morta o doutor. 

Dizem que morreu de frio, eu sei que morreu de Amor. 

(José Marti)

Na aprendizagem da vida, como na aprendizagem do amor, que para mim são uma só coisa, somos arrastados para situações várias, onde precisamos aprender a atravessar desertos áridos, integrando certezas que para nós parecem demasiado duras e estupidamente incertas.

A lei da impermanência, mostra-nos que na vida, existem ciclos inevitáveis e que passam sempre pela mesma dinâmica – “vida-morte-vida”.

Aprender a morrer para o que já morreu, para deixar viver o que tem vida, é imprescindível, mas nada fácil, pois requer uma perícia quase cirúrgica de contacto com as nossas feridas, de aceitação das nossas vulnerabilidades, de rendição absoluta daquilo que a vida nos traz como convites para aprendizagens. São estas que nos conduzirão no caminho da luz, obrigando-nos para isso a visitar os nossos recantos, as nossas sombras!

Nesta busca incessante pelo sentido da vida e pelo resgate do verdadeiro Amor, somos muitas vezes convidados a atravessar campos armadilhados, mantendo até sem percebermos porquê, relações abusivas, desprovidas de verdade, unilaterais, onde mesmo após o prazo de validade expirar, nos enroscamos amedrontadas pela incerteza pulsante de voltarmos a “ficar-sós”.

Esta incerteza é muitas vezes um processo inconsciente, mas o resultado é sempre o mesmo, toleramos humilhações, rejeições, traições, com a ilusão de não ver morrer o que no fundo até sabemos estar morto há muito.

Duvidamos do fim e, quando assim é, torna-se estupidamente comum sermos surpreendidos pela “estocada final”, ou seja, pela realidade esparramada na nossa cara. Conversar olho no olho com a VERDADE e sermos-lhe fiéis é uma tarefa desafiante, principalmente quando ainda não tivemos experiências suficientes para saber como a reconhecer com lucidez.

Recordei-me agora, do jogo Verdade ou Consequência, lembram-se ?

Pois bem, a regra principal era muito simples – se escolhêssemos a opção “verdade”, uma pergunta geralmente do foro íntimo teria de ser respondida, mas se escolhêssemos a opção “consequência”, teríamos de realizar uma tarefa de acordo com a vontade do outro, o que se mostrava muito mais desafiante do que responder à primeira opção.

No caso das nossas relações, especialmente quando as mesmas nos intoxicam, confundindo-nos os sentimentos, recusamos, ainda que inconscientemente, responder à verdade, optando pela consequência a que, o facto de a termos recusado, nos conduzirá.

Uma destas consequências é a ilusão, e é disto provavelmente, que nos fala o poema que inicia este texto – “…dizem que morreu de frio, eu sei que morreu de amor”.

Na verdade, não se pode morrer de Amor, porque amor é aquilo que somos na essência e aquilo que somos na essência é eterno.

O Amor não tem rupturas, nem pode “matar” ninguém.

As perdas, os desgostos, as desilusões que vamos tendo ao longo da vida, com as nossas relações amorosas, esses sim podem efectivamente fazer-nos sofrer bastante. No entanto, mas nada mais são que dissolventes dos nossos egos feridos.

Doem sim, matam-nos ilusões sim, com uma estratégia e perícia únicas, capazes de nos fazer bater com a cara no chão em milésimos de segundos, é um facto.

Isto tem a ver com dor e sofrimento, mas nunca com Amor.

Se o autor José Martí, me permite, eu reescreveria então o seu belo poema e diria antes, assim:

…Entrou de tarde, no rio,

Retirou-a morta o doutor.

Dizem que morreu de amor,

Eu sei que morreu de frio

 Porque não é de Amor que se morre, mas sim de frio.

Do frio, de se ser mal-amada e do frio de se permitir sê-lo.

Do frio, da mentira e das traições pulsantes.

Do frio gélido, da falta de intimidade e da rejeição constante.

Do frio da indiferença.

Do frio, de deixar de viver a sua vida, entregando-a a alguém que não pretende consigo viver.

Do frio de culpar o outro, mas de continuar a tomar para si, todas as dores e responsabilidades que só a ele pertencem.

Do frio, que só a ausência do calor humano consegue produzir.

Não, o Amor não mata, nem dói.

O que dói são as dependências, os processos alquímicos que precisamos de atravessar e as feridas que temos de sarar, para nos cumprirmos enquanto passageiros breves por esta terrena dimensão.