RELAÇÕES ABUSIVAS & TRAUMA

“A traumatização é um excesso de passado, no meu presente, mesmo que eu não tenha consciência dele, pois é o passado, porque não passou, que acaba por nos governar! “

Liana Netto

Começo este texto, com uma das perguntas, que durante anos fiz a mim mesma, no que diz respeito às relações abusivas e às dinâmicas que as mesmas trazem atreladas a si.

Porque razão, o stress vivido numa relação abusiva, que deixou a pessoa doente, até fisicamente falando, porque razão, é que depois de terminada essa  relação, a pessoa não melhora? Inclusive numa primeira fase, até pode piorar todos os sintomas que tinha, enquanto estava a ser abusada?

Estas perguntas, tinham sempre a mesma resposta, que por si só, não me fazia sentido – a “responsabilidade” era da Co-Dependência, como sendo uma “doença” crónica e incurável. Inconformada e impotente, assistia a padrões destrutivos repetitivos, justificados com a “doença-da-co-dependência”.

Decidi ir mais fundo neste tema, e hoje tenho uma visão que sinto ser mais ampla e amplificada, não só através de formações que fui fazendo, de pesquisas, de trabalhos teóricos e práticos de especialistas internacionais nesta área, sentindo-me à vontade para afirmar que apesar de poderem existir múltiplas respostas, uma delas ficou em mim, como sendo a base da adicção e da co-dependência.

Têm um nome, traumatização.

Sem me alongar muito, deixo-vos aqui a reflexão, que existem diferenças entre TRAUMA e TRAUMATIZAÇÃO. Todos nós podemos passar por situações de trauma – por exemplo um acidente de carro, porém nem todos ficam traumatizados com a mesma.

Então podemos resumir, dizendo que viver uma situação de TRAUMA, não significa necessariamente que exista TRAUMATIZAÇÃO, bem como viver algo sem qualquer aparência de TRAUMA, significa que a mesma não possa existir.

O processo de TRAUMATIZAÇÃO, acontece sempre que tenha existido uma carga excessiva de stress no nosso sistema nervoso, com a qual tivemos de lidar.

Regra geral, pela intensidade e potência com que recebemos a experiência, não houve possibilidade de fazer uma descarga saudável da mesma, o que segundo o Dr. Peter Levine, mentor da Somatic Experiencing, nos deixa resíduos traumáticos, que obviamente não estão naquilo que nos aconteceu, mas sim na forma como conseguimos processar, aquilo que nos aconteceu.

Depois desta pequena viagem entre o trauma e o processo de traumatização, talvez possamos entender melhor que, uma “vinculação-distorcida” com os nossos cuidadores primários, pode deixar em nós estes resíduos traumáticos que mais tarde poderão impactar e padronizar as nossas relações de várias formas, seja pela normalização do abuso e/ou pela perpetuação do mesmo, ainda que o abusador já tenha “saído-de-cena”.

Quando do abuso resulta uma resposta de SPT (Stress pós-traumático), é muito comum manterem-se índices de stress crónicos, que comprometem e impedem o fluxo natural da nossa vida, e onde, entre outras respostas traumáticas, vemos o nosso senso de segurança e orientação ficarem comprometidos, tornando-se assim, difícil distinguir o que é seguro, do que é tóxico, e quem é confiável de quem não é.

De repente, perdemos o contacto com a vida e deixamos de nos conseguir habitar a nós mesmos, passando a habitar uma estranha, assustadora e bolorenta casa, onde nada parece fazer sentido,

Como podemos então “curar” o trauma, evitando assim continuar a repetir padrões disfuncionais e destrutivos nas relações?     

O termo “cura” é vasto, e por isso iremos falar antes, na possibilidade que existe em nós de o renegociar, de o mover para um outro lugar, e por fim, de o cicatrizar.

Claro está, que existe um processo que precisa de acontecer.

Para começar, precisamos de nos comprometer com o mesmo, sabendo que não é num dia, que o que nos dói, deixará de doer.

Deixar que outras partes de nós que não foram feridas, e que parecem inexistentes, possam falar connosco, pode ser um recurso precioso.

Aprender a ficar com todas estas partes, sabendo que o que dói, dói, que ocupa o seu espaço sim, mas validando ao mesmo tempo, que “isto” que dói, não ocupa o espaço todo cá dentro, pois a verdade é que somos muito mais do que a nossa história.

Observar com curiosidade o nosso processo de transformação, pode ser também um recurso bastante poderoso. A generosidade e o carinho com que podemos honrar as nossas feridas, sabendo que todas as cicatrizes nos enrijecem a pele, e relembrando que existem enormes janelas de oportunidade, existe um crescimento pós-traumático e uma liberdade única, que acontece quando aceitamos estar com todos os nossos pedacinhos, pois são exactamente estes, que nos podem levar a tecer, numa multiplicidade de cores, a mais bela tapeçaria das nossas vidas!

Para terminar, deixo-vos reflexão, da autoria Dra. Liana Netto, com quem tenho tido o enorme privilégio de aprender, e que diz o seguinte; o trauma não é só o efeito da violência, o trauma é também a causa da violência.

Cuidemos então, de tudo que habita em nós, para que possamos ser mais livres, e usufruir de relações saudáveis, verdadeiras e confiáveis!